Royal Canin 20 anos

O uso do cloreto de sódio (NaCI) como promotor da diluição urinária de cães e gatos

Departamento Técnico e Científico Royal Canin do Brasil1

As afecções do aparelho urinário inferior representam aproximadamente 7% dos motivos de consulta nos gatos (Osborne, 1995a) e 3% nos cães (Osborne, 1995b). A urolitíase está na origem do problema em aproximadamente 13% dos casos em gatos (Buffington, 1997) e 18% em cães (Lulich et al., 2000). Nestas espécies, os cálculos urinários mais freqüentes são estruvita (fosfato de amônio-magnesiano), oxalato de cálcio e cálculos mistos (Ross et al., 1999).

A urolitíase é mais freqüente em gatos, com maior prevalência em machos castrados (Colin, 2005). No cão afeta principalmente animais de pequeno porte, devido ao menor volume urinário e número de micções (Stevenson, 2002). As raças mais afetadas são: Schnauzer miniatura, Yorkshire, Shih Tzu, Poodle mini, Bichon Frisé e o Lahsa Apso (Ling, 1998).

A abordagem nutricional para o tratamento da urolitíase geralmente inclui manipulações dietéticas que promovam adequada alteração do pH urinário (suave acidificação) e incremento da diurese para induzir a um aumento no volume urinário e produção de urina sub-saturada (Lulich et al., 2000; Stevenson et al., 2003; Lulich et al., 2005).

A acidificação urinária aumenta a solubilidade dos cálculos de estruvita, enquanto os cristais de oxalato de cálcio são pouco sensíveis às variações de pH (Stevenson e Rutgers, 2006). Portanto, a acidificação urinária é interessante para tratar casos de urolitíase por estruvita já instalados, mas pode predispor, em alguns casos, à formação de cálculos de oxalato de cálcio.

Promover a diluição urinária é o método mais eficiente para evitar a formação de cálculos urinários de qualquer natureza uma vez que a urina diluída, além de apresentar-se menos concentrada em minerais precursores dos cristais, também favorece sua eliminação (Lulich et al., 2000; Stevenson et al., 2003). Para estimular a diurese é necessário aumentar a ingestão voluntária de água, o que pode ser obtido por vários métodos como fornecimento de água fresca, em movimento (torneiras, fontes) ou adicionada de flavorizantes.

O incremento moderado do teor de sódio (Na) das dietas, através da adição de cloreto de sódio (NaCl), é um dos métodos empregados na nutrição de cães e gatos para prevenir ou tratar cálculos urinários (Figura 1). Vários trabalhos demonstram a eficiência do sódio em promover maior ingestão voluntária de água, aumento do volume urinário, aumento do número de micções, redução da gravidade específica da urina (medida indireta da densidade e da concentração urinária) e conseqüentemente redução da formação de cristais e cálculos urinários nessas espécies (Hamar et al, 1976; Devois et al, 2000; Hawthorne e Markwell, 2004; Xu et al., 2006).

1Yves Miceli de CARVALHO, MV, MSc, Gerente Técnico e Científico, Responsável Técnico; Wandréa de Souza MENDES, MV, MSc, DSc, Consultora Técnica e Científica; Luciana Domingues de OLIVEIRA, MV, MSc, Consultora Técnica e Científica; René RODRIGUES JUNIOR, MV, Consultor Técnico e Científico; Hamilton Lorena da SILVA JUNIOR, MV, Consultor Técnico e Científico.

O uso do NaCl em dietas para cães e gatos tem sido questionado por algumas empresas de pet food, que chamam a atenção de veterinários e proprietários para os níveis mais elevados de sódio das dietas desenvolvidas pela Royal Canin com a finalidade de prevenir ou tratar a urolitíase em cães e gatos, como possível causadora de hipertensão e insuficiência renal crônica. Estas declarações baseiam-se na relação conhecida entre a ingestão de Na e hipertensão em seres humanos e em um único trabalho realizado com gatos, apresentado no Procedings of the 20th American College of Veterinary Internal Medicine Fórum (Kirk, 2002), no qual o incremento do nível de sódio dietético foi possivelmente relacionado ao agravamento de insuficiência renal através da mensuração de alguns parâmetros bioquímicos séricos (Lulich et al., 1999; Osborne et al., 2000; Kirk, 2002).

Entretanto, diversos estudos científicos não foram capazes de demonstrar que o aumento moderado dos teores de sódio dietético apresente relação com o aumento da pressão sangüínea em cães e gatos saudáveis ou submetidos à redução cirúrgica do tecido renal (nefroectomizados) (Greco et al., 1994; Biourge et al., 2002; Burankarl et al, 2003; Lucksander et al, 2004).

Outro efeito citado como potencialmente deletério do sódio para animais, refere -se a alterações na excreção urinária de cálcio. Entretanto, Stevenson et al. (2003) demonstraram que a ingestão de dietas com níveis elevados de NaCl não provocou hipercalciúria em cães adultos saudáveis. Por outro lado, estudos epidemiológicos demostraram que o aumento moderado de Na é capaz de reduzir o risco de ocorrência de urolitíase por oxalato de cálcio, devido à produção de urina diluída, que compensa a tendência à hipercalciúria (Leckcharoensuk et al., 2001, 2002a, 2002b).

O NRC (2006) cita como ingestão mínima para cães adultos em manutenção 0,3g de Na/kg de alimento na matéria seca (MS), como teor recomendado 0,8g de Na/kg de alimento na MS, e como nível máximo seguro 15g de Na/kg de alimento na MS (valores considerando dietas contendo 4000 kcal/kg de EM). Para gatos adultos em manutenção o NRC (2006) cita como ingestão mínima teores de 0,65g de Na/kg de alimento na MS, ingestão recomendada teores de 0,68g de Na/kg de alimento na MS, e nível máximo seguro de 15g de Na/kg de alimento na MS (valores considerando dietas contendo 4000 kcal/kg de EM) (Tabela 1). Deve-se ressaltar que as quantidades de nutrientes citadas pelo NRC (2006) consideram a EM do alimento na MS, portanto os valores declarados para os alimentos Royal Canin, apresentados na tabela 1, foram convertidos para esta base, com a finalidade de permitir comparações.

Os alimentos da Royal Canin que utilizam o NaCl com o objetivo de aumentar a ingestão de água e promover a diluição urinária são (g de Na/kg de MS): Urinary Canine (11,1g), Urinary S/O Canine wet (11,24g), Schnauzer miniatura (12,2g) (Figura 2), Urinary S/O Feline (10g), Urinary S/O Feline wet (7,5g), Young Female S/O Feline (7,78g), Young Male S/O Feline (7,78g), Mature S/O Feline (6g) e Senior S/O Feline (3,89g) (Figura 3).

Portanto, os níveis de sódio contidos nos alimentos Royal Canin não representam risco à saúde dos cães e gatos que as consomem, quando utilizados segundo as orientações contidas nos rótulos.

Adicionalmente, os alimentos da Royal Canin especificamente formulados para as urolitíases, não sendo recomendados, sob qualquer circunstância, para animais que possuam afecções que alterem a hemodinâmica orgânica, como doentes renais ou cardíacos. A decisão de utilização das dietas supracitadas cabe ao médico veterinário, após avaliação adequada e exclusão dos riscos associados.

Finalmente, as empresas que até hoje adotaram o claim “sódio reduzido” já têm declarado em publicações oficiais recentes, que o aumento moderado de sódio não é capaz de alterar a pressão sangüínea em cães e gatos saudáveis (Polzin, 2006; Forrester, 2007), contradizendo suas próprias declarações anteriores.

Considerações Finais

As urolitíases constituem um problema importante na clínica de cães e gatos e podem ser prevenidas e tratadas através de uma abordagem dietética que minimize o risco de formação de cálculos através da diluição e acidificação urinária produzida por um incremento do sódio dietético e do uso de acidificantes.

Até o presente momento, não existem evidências científicas que comprovem que a ingestão de NaCl contribua para o desenvolvimento de hipertensão, insuficiência renal, insuficiência cardíaca ou hipercalciúria em cães ou gatos saudáveis, com livre acesso à água. Portanto, informações sobre os efeitos nocivos do Na sobre a saúde destes animais são apenas especulações atualmente.

Os níveis de sódio contidos nos alimentos Royal Canin não representam risco à saúde dos cães e gatos que as consomem, quando utilizados segundo as orientações contidas nos rótulos.

Anexos

Tabela 1. Teores de sódio (Na) em alguns alimentos Royal Canin e os níveis de sódio mínimos, adequados e máximos seguros recomendados pelo NRC (2006).


Teores de Na recomendados pelo NRC (2006)
Alimento EM/ Kg de
alimento na MS
Teor adequado
(g/KG deMSa)
Teor máximo seguro (g/Kg de MSb)
Na contido nos alimentos Royal Canin (g/Kg de MS)
Gatos



Urinary S/O 4333,3 0,74 16,25 10,00
Urinary S/O wet 4382,5 0,75 16,43 7,50
Young Female S/O 3888,9 0,66 14,58 7,78
Young Male S/O 3888,9 0,66 14,58 7,78
Mature S/O 4055,6 0,69 15,21 6,00
Senior S/O 4388,9 0,75 16,46 3,89
Cães



Urinary 4500,0 0,90 16,88 11,11
Urinary S/O wet 4569,5 0,91 17,14 11,24
Schnauzer miniatura 4333,3 0,88 16,43 12,22

acalculado de acordo com NRC (2006) multiplicando-se a EM de cada alimento por 0,8 (cães) ou por 0,68 (gatos) e dividindo-se o resultado por 4000.
bcalculado de acordo com NRC (2006) multiplicando-se a EM de cada alimento por 15 (cães ou gatos) e dividindo-se o resultado por 4000.



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