Royal Canin 20 anos

O interesse de uma suplementação nutricional em Taurina em cães adultos de raças grandes e gigantes

Um pouco de história

A taurina foi primeiramente isolada em 1826 a partir da bile de bovinos (bos taurus), de onde se originou seu nome. Ela tem como função a formação dos sais biliares : em conjugação com ácidos cólicos, a taurina permite a síntese dos sais biliares no fígado, o taurocolato e o tauroquenodeoxicolato, que favorecem a digestão das gorduras devido a seu poder emulsificante.

Natureza e origem da taurina

A taurina é um aminoácido sulfurado particular (fórmula : NH3 CH2 CH2 SO3 ). Ao contrário dos outros aminoácidos, ela não está associada a outros aminoácidos para formar as proteínas, mas permanece sob a forma livre.

Na maioria dos mamíferos, entre eles os cães, a taurina pode ser sintetizada no fígado a partir de dois aminoácidos sulfurados, a cisteina e a metionina. Uma das enzimas responsáveis pela síntese é a decarboxilase do ácido cisteico sulfínico (DAS). A taurina não é um aminoácido indispensável aos cães, pois eles são capazes de sintetizá-la a partir dos aminoácidos sulfurados.

Por outro lado, os gatos dependem de um fornecimento alimentar em taurina : a síntese hepática é muito baixa nos gatos e a substituição da taurina pela glicina para a conjugação dos sais biliares é impossível. A taurina é portanto um aminoácido « indispensável » para os gatos.

Distribuição da taurina no organismo

A taurina está ausente nos vegetais mas está presente em todos os tecidos animais1 .

75 % da taurina se encontra nos músculos estriados2 , sob a forma livre no interior das células3 .

O miocárdio é o músculo que contém maior quantidade de taurina2,4. No coração sadio a taurina representa mais de 40 % dos aminoácidos livres no músculo cardíaco4 .

No sangue a taurina está presente sobretudo nos glóbulos vermelhos e nas plaquetas.

O sistema nervoso central e a retina também são ricos em taurina.

A quantidade de taurina presente no organismo não está somente condicionada à atividade da enzima que a sintetiza ou ao nível do fornecimento alimentar, mas também:

  • ao nível de excreção urinária : o rim tem uma função regulatória ;

  • à composição da flora intestinal, que pode acarretar na desconjugação dos ácidos biliares e na degradação da taurina, que deixará portanto de ser reciclada.
Funções fisiológicas da taurina
Tabela 1 : Principais funções da taurina em mamíferos
(Segundo Ryan, Huxtable 1987 AEMB modificado)

Órgãos-alvo Principais funções
Fígado Síntese de sais biliares
Olhos A taurina é indispensável para a integridade da retina, a membrana que reveste o fundo do olho e sobre a qual se formam as imagens. A concentração de taurina na retina é de 100 a 400 vezes superior àquela do sangue.
Coração

A taurina age por sua vez sobre :
  • a capacidade de contração do músculo cardíaco (efeito inotropio)5
  • o rítmo cardíaco (função anti-arrítmica)6,7
  • a integridade das células musculares cardíacas: a taurina previne a hipertrofia induzida pela angiotensina II in vitro 8.
Sistema nervoso A taurina é indispensável para o desenvolvimento e a integridade dos tecidos nervosos. Entre outras funções, ela é capaz de influenciar a excitabilidade dos neurônios e tem um efeito anti-convulsivo (Ela é utilizada no tratamento de epilepsia em seres humanos).
Aparelho reprodutor A taurina é um fator de mobilidade dos espermatozóides ; ela intervém portanto na fertilidade.
Músculos A taurina é um fator de estabilização das membranas das células musculares.
Diversos

A taurina intervém nos mecanismos de coagulação, nas reações imunes, na regulação da colesterolemia, da glicosúria e da glicogênese. A taurina também é conhecida por sua atividade antioxidante 8.


A taurina também é conhecida por sua atividade antioxidante 8.

Excluindo a conjugação dos ácidos biliares, a taurina parece agir sobretudo como um agente osmorregulador, influenciando o fluxo de cálcio para o interior e o exterior da célula 9. Desta forma a taurina pode influenciar a capacidade de contração do músculo cardíaco 5.

A taurina protege as células do músculo cardíaco de uma sobrecarga de cálcio, regulando o fluxo de cálcio através da membrana celular 7,11,12.

Ela também apresenta um efeito antioxidante 8.

Taurina e cardiomiopatia dilatada

Sabe-se que em gatos e raposas uma carência prolongada em taurina pode ser a causa de uma grande dilatação das cavidades cardíacas, conhecida como cardiomiopatia dilatada ou CMD 13,14 . Estas lesões podem ser reversíveis adotando-se uma suplementação em taurina.

A cardiomiopatia dilatada existe também em cães : segundo Freeman, a CMD foi diagnosticada em 0.5 % dos cães atendidos nas universidades de veterinária americanas. Com algumas exceções, a CMD afeta principalmente cães de raças grandes e gigantes, como o Doberman, o Boxer, o Dogue Alemão e os Lévries escocês e irlandês. A incidência desta doença entre estas raças varia de 3.4 % para o Boxer a 6 % para o Lévrie Escocês. Alguns autores estimam uma incidência de CMD de 44.9 % para o Doberman 15.

Figura 1: Incidência da cardiomiopatia dilatada expressa em porcentagem de casos novos atendidos em hospitais veterinários nos Estados Unidos.

( Veterinary Medical Data Base, Purdue University)

Reconhece-se atualmente que a cardiomiopatia dilatada é um problema freqüente em cães de raças grandes.

Pesquisou-se também uma possível relação entre esta afecção e uma deficiência em taurina.

Observações clínicas

Ensaios clínicos permitem sugerir que uma deficiência em taurina induzida pela alimentação, perturba o funcionamento do miocárdio em cães 16.

Em um grande número de casos de cardiomiopatia dilatada (sobretudo em raças « de risco » como o Cocker Spaniel e o Golden Retriever), o teor plasmático em taurina está normalmente abaixo 3. Entretanto isto não se refere ao conjunto de casos de CMD.

Um outro estudo mostrou também que um grande número de cães das raças mais propensas à CMD apresentam uma deficiência em taurina 4. Nem por isso um baixo teor plasmático em taurina está obrigatoriamente presente em casos de lesões de CMD.

Um grupo de cardiologia da universidade de Davis diagnosticou a CMD em associação com uma deficiência em taurina em várias raças de cães (Boxers, Golden retrievers, Dálmatas). Estes cães respondem positivamente a uma suplementação em taurina 3.

Os cães susceptíveis de apresentarem cálculos urinários de cisteína ou urato (principalmente o Dálmata, mas também o Bulldog inglês), mostraram uma predisposição à CMD 17. Nestes cães os cálculos se desenvolvem devido a um problema hereditário, a excreção de uma grande quantidade de ácido úrico, subproduto das bases púricas. A fim de diminuir a excreção de ácido úrico, recomendase aos proprietários alimentarem seus animais com uma dieta pobre em proteínas.

Mas:

  • em cães, dietas pobres em proteínas e ricas em gorduras seriam responsáveis pela diminuição dos níveis de taurina no plasma, sangue e tecidos 16;

  • Algumas deficiências nutricionais foram relacionadas ao aparecimento de sintomas de CMD : deficiência em taurina, carnitina, selênio e tiamina. A análise de um dos alimentos industrializados mais comumente prescritos nos EUA para a prevenção de cálculos de urato revelou teores muito baixos em proteínas, ácidos nucléicos, cálcio, fósforo, magnésio, sódio e cobre 17. É possível que este tipo de dieta utilizada por longos períodos de tempo esteja implicada na evolução da CMD. (A taurina foi adicionada recentemente a este alimento).

Interesse de uma suplementação em taurina em cães de raças grandes

Observação n° 1: sabe-se que a CMD é um problema muito freqüente em cães de raças grandes.

Observação° 2: alguns estudos recentes mostraram que a maioria dos cães acometidos pela CMD apresentam um teor plasmático em taurina abaixo do normal (< 50 nmol/ml e para o sangue < 200 nmol/ml).

Mesmo que uma deficiência em taurina não seja a única causa da cardiomiopatia dilatada em cães de raças grandes, estas observações sugerem que as deficiências não são raras e que uma suplementação poderia ter um efeito positivo.

Observação n° 3: assim como os gatos, os cães necessitam de taurina para a conjugação dos ácidos biliares e não podem utilizar a glicina como outras espécies animais. Eles apresentam ao menos uma razão em comum para desenvolverem uma carência em taurina : em cães foi demonstrado que uma dieta pobre em proteínas (e portanto também pobre em aminoácidos sulfurados), mas rica em gorduras pode reduzir significativamente o teor de taurina no plasma, no sangue total e tecidos.

A função exata da taurina nas afecções cardíacas ainda não é completamente compreendida, mas ela é promissora para o tratamento das afecções cardíacas em geral, graças a sua ação positiva sobre o funcionamento cardíaco :

  • efeito inotropio positivo (aumento da contratibilidade do músculo cardíaco, e portanto de sua força de ejeção de sangue pelo coração)

  • proteção contra problemas do ritmo cardíaco

  • Prevenção contra a hipertrofia das células do músculo cardíaco (miócitos).

Os resultados das pesquisas realizadas até o momento sugerem que uma suplementação sistêmica em taurina em cães de raças grandes e gigantes parece ser interessante para a prevenção de doenças cardíacas. Também há outras perspectivas no campo da prevenção e terapêutica das doenças nervosas e musculares.

Enfim, a taurina teria um efeito antioxidante, o que a torna particularmente recomendável para cães que envelhecem precocemente.

Referências

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